- Vó, você precisa se arrumar para a missa!
- Mas Eduarda, cadê seu avô?
Não sabia o que dizer e nem tinha o que falar. Como explicar? Se ela ao menos soubesse uma maneira de não magoá-la, de fazê-la entender e se lembrar, de fazê-la não sofrer.
- Ele não vai com a gente, vai jogar canastra, vó.
Sempre seca, sempre desviando. O que mais poderia fazer? Já haviam se passado quase dez anos e ela não se recordava de nada. Ela não sabia de nada. Sua avó não entendia que seu avô havia morrido e ela não entendia que sua avó estava lentamente morrendo por dentro.
O barulho do copo caindo. As mãos trêmulas, o choro.
- Vó, o que foi?
- O copo...
- Machucou a senhora, vozinha?
- Eu... Eu... Não, não... Eu não consigo, filha, eu esqueci a receita, eu não sei o que faço...
Doía e ela sabia que doía. Ela envelhecia cada dia mais, os netos repentinamente cresciam, o marido sumia, o cachorro ia ficando grisalho, as árvores secando. Se ao menos Eduarda pudesse fazer algo, como queria tirar a dor do peito dela e pegar para si evitando que ela sofresse, queria chorar, mas precisava ser forte por ela.
- Vozinha...
- Duda... Me deixa ir, é a minha hora
Como negar aquele pedido? No hospital se despediu, nem sabia que estava doente, mas sabia que era aquela a sua hora. Como se tivesse se lembrado de tudo ela aceitou a morte como uma velha amiga. A Eduarda não entendeu, não estava pronta para perde-la, mas ao mesmo tempo se sentia bem por saber que aquela dor que ela estava sentindo passara.
Por Helena Malaquias
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