segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sacrifício

Agachado na mais escura umbra,aperto meu corpo, e sinto as pedras, uma a uma. O frio dantesco calcifica minha carne:
- Por favor, pare! Por favor, pare!
Não há mais dor, por que tudo o é, num mundo de negrume não há contrastes, nem alívios fáceis.
Homens e mulheres desengonçados se atropelam, tragicômicos, cabeças e ombros colidem-se em impactos ocos e burros. Não vejo suas faces, nem sei se são humanos. Ou, talvez, seja eu.
Uma redoma me exila do toque do calor. Ela turva minha visão, e transfigura todos estes sons em ruídos, balbucios animalescos que me dão medo.
Onde está a minha vida?
Eu sou todo ferida,
Aberta,
Gemida.
- Por favor, alguém. Por favor, alguém!
Também não me escutam...
Meus membros não me obedecem, estão enrijecidos. Acho que se pudessem sairiam correndo de mim. Tenho certeza que se eu pudesse, definitivamente o faria.
Sinto nascer, prolongando-se da minha espinha, uma cabeça. Verde, córnea, dentuça.
Seus olhos vultosos e violetas me encaram, espelhando meu rosto.
- Quem é você? Quem é você?
Ele me olha, muito triste.
Seus lábios desproporcionalmente largos se contorcem continuamente, suas narinas excretam um líquido viscoso, negro, que banha meu tórax e me enche de aversão.
De repente, um braço se projeta para fora de sua garganta, estuprando sua boca que se desfalece. O som de sua carne rasgando foi pior que escutar seu abafado grito de dor.
O braço sinuosamente envolve meus ombros. Move-se como uma serpente, desrespeitando os limites de suas articulações e estrutura óssea. Circunda-me, passeando pelos meus músculos atrofiados. Sinto um cheiro venéreo vindo daquela tenebrosidade. Perguntei-me o que poderia exalar um odor tão asco, a resposta me veio instintivamente.
- É o cheiro da morte.
A mão que pendia daquele braço agarra minha garganta, tão forte que sinto dobras de meu pescoço saltarem das nódoas de seus dedos.
E aperta.
Há muito não tenho forças sequer para me mover. Confrontar-me com aquele estrangulamento não me era opção. Entreguei-me. Mergulhei-me na ideia de escapar daquela existência pitoresca.
E fui-me indo,
Esvaindo.
Então, trincando a cúpula de cimento que me trancafiava naquela prisão, uma luz potente, calorosa, invade, cavalgando mil léguas, fertilizando a aridez crua daquele solo azul, primeiro cegando, para após direcionar os seres que faziam a guarda da minha solidão. Eles não mais se esbarravam.
A luz invadiu meu círculo negro, ebulindo com vigor a pele daquele braço que brotava de minha coluna.
O sangue que se estagnava em minhas artérias moveu-se.
Levantei-me.
Reconheci-me.
Um anjo se sacrificou por mim. Salvou a minha vida.
Eu morreria...não...
Eu viveria mil vezes por ele.


Por Matheus Queiroz

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