domingo, 8 de dezembro de 2013

Tão Dona Ana...


Abri o portão e desci as escadas de Ardósia. Sentia o peso da mochila repletas e livros, o calor da calça do uniforme, e olhava meu tênis desamarrado, enquanto descia o corredor de paralelepípedos, cercado por aquele jardim lindo, cuja melodia de diversos passarinhos soava divinamente afinada.

Do portão baixinho, podia ver aqueles cabelos grisalhos, perfeitamente penteados, com um arquinho, e ainda úmidos.

Parada na porta da cozinha, podia sentir o cheiro da macarronada à lá Nonna, que estava divinamente arrumada na travessa de cerâmica, com pequenas folhas de manjericão enfeitando.

Aconchegada em seu abraço de avó-mãe, seu perfume me invadia as narinas, me trazia conforto, amor, carinho e cumplicidade. Seu sorriso, sempre presente, me recebia da forma mais doce que alguém pode ser recebido para almoçar.

- Tava bom, meu anjo? - Perguntou, enquanto retirava os pratos da mesa.
- Uma delícia, vovó! (Como tudo o que a senhora faz) - pensei.

Levantei, para brincar com os cães. Estava um dia maravilhoso, de fevereiro. Calor, sol, as plantas balançando conforme o ritmo do vento, as cores das flores brincando com os pássaros, diante daquele fundo azul-bebê deslumbrante do céu de fevereiro.

- Filhinha, vem aqui, tem surpresa!

Entrei mais do que rápido! Dei de cara com uma travessa gigantesca de bolinhos de chuva, cobertos com açúcar e canela. Lindos, grandes, cheirosos, quentinhos.
Olhei para a D. Ana, sorri, segurei suas duas mãozinhas (pequenas, pintadinhas, unhas feitinhas e curtas) e dei inúmeros beijos.
Ela, sorrindo, colocou a jarra branca, com grama desenhada, e tampa verde em cima da mesa... O que tinha dentro da jarra? Chá gelado!!!!!
Comemos os bolinhos, conversamos, tomamos o matte gelado e fomos assistir à novela da tarde.
Só me lembro de ter deitado a cabeça em seu colo e adormecido,sentindo seu cheiro doce, de avó carinhosa e especial, e seu carinho em meus cabelos.

- Filha, acorda. São seis e meia. Você vai perder a aula.

Enxergando tudo ainda embaçado, abri apenas um olho e me deparei com meu quarto desfocado e minha mãe me acordando. Sorri.

- O que houve? Você NUNCA acorda sorrindo...
- A vovó, mãe. Sonhei com ela. Acordei sentindo o cheiro dela, como se ela estivesse viva, me mimando, como sempre fazia. Foi tão real, tão aconchegante, tão.... Tão Dona Ana!


Por Gabriela Frota

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