Já não há mais fotos nossas, seus quadros eu cobri, e como pintava. Suas poesias, tratei de guardar. Cada paço nesse apartamento é pesado, de fora dele é doloroso. E a luz que não se apaga. Já tem uma dezena de anos meu amor. Eu já não sou aquele que você se lembra, já não tenho aquela idade. Já não tenho aquela mesma agilidade com que eu tocava suas músicas prediletas, é bem verdade que o braço do violão empenou. Acho que foi umidade, talvez eu devesse tê-lo posto de lado quando eu tentava tocar nossa música e errava sempre na mesma nota, parava, esperando você dizer “não pare, eu estou adorando ouvir você...”. Você não disse mais. E nossos filmes... Os dei a quem quisesse levar, não preciso assisti-los para lembrar de cada uma de suas cenas favoritas, cada momento em que você ria, cada fala que te fazia chorar, agora elas me fazem tão mal. Onde está você, aonde nós fomos parar. Gostaria que soubesse que você me levou junto, acho que sabe, quem ainda não se acostumou fui eu. E meus sonhos, que eram os seus que eu tomei por meus. É bem verdade que mau sonho era realizar os teus, e isso é o meu único sucesso real. Se teu sonho era me fazer feliz. Conseguimos. Por que essa luz não se apaga? O que ainda me falta assistir, nessa nossa peça sem fim, o dueto mais belo já não voltará mais ao palco e meu monólogo se torna cada vez mais sóbrio, monótono, unívoco.
Eis que sou eu um lobo. Vago de dia, sobrevivo como posso, mas a noite me dilacera a carne. Eu acho que quebrei nosso relógio, você gostava tanto desse relógio, e eu o detestava como podia. Ele marcava o tempo que eu tinha que me separar, o tempo que eu ficava longe de você, e quando estávamos juntos ele corria sem freio. Agora o que eu clamo é que ele se mova, ele parece se arrastar de propósito. Sempre que levanto esses olhos velhos...E os paço pela nossa casa, esse relógio se freia mais e mais, como se quisesse que eu tivesse tempo para relembrar em cada detalhe da sua decoração, o quanto você me faz falta. Eu estou cansado, o mundo se cansou de mim, acho que não vão dar falta se eu mesmo for, com a força que você me deixou, eu mesmo apagar a luz.
Por Leonardo Leite
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