As histórias alheias, as confissões, os corações partidos. Cada uma tem uma história para contar. Por isso estamos aqui. Pois fazemos crônicas. Crônicas de um observador.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Rosas Brancas
- Vovô.. de que o senhor sente mais falta nessa vida?
Seu Agnaldo ficou calado por um momento.
- Do cheiro de Dona Carla.
-Ok... Mas se o nome da vovó é Lúcia então quem é Dona Carla?
Ficou em silêncio por um momento. Pareceu refletir sobre seu passado. Daí soltou:
- Dona Carla foi a moça mais formosa de meu município no meu tempo. Era uma tarde de sábado na primavera de 1932 quando eu resolvi dar um mergulho no riacho perto das cachoeiras da fazenda onde meu avô morava, um lugar muito bonito a inspirador. Dona Carla era a filha de um fazendeiro que morava na fazenda ao lado e estava prometida para casamento com o filho do sócio de seu pai. Fui caminhando sozinho até o riacho e lá me deparei com a beleza mais pura, singela e delicada sentada a beira da margem com os pés na água. Aaah... mas que encanto! Meus olhos se deliciaram com tal cena e não perdi a oportunidade de conhecê-la. De início a assustei mas após um tempo já estávamos entorno de uma longa e prazerosa conversa. A cada palavra que saía de sua boca seus lábios se moviam de tal forma a me hipnotizar, suas covinhas na bochecha me deixavam anestesiado e seu olhar produzia um efeito viciante sobre mim. Combinamos de nos ver de novo e de novo e a cada momento ao lado dela para mim era como o paraíso. Um dia, o tempo passou tão rápido que quando percebemos já estava anoitecendo e já dava pra ver o reflexo da lua cheia na água. Foi quando tomei a iniciativa e lhe roubei um beijo e nos amamos a luz da lua. A cada beijo que eu espalhava por seu corpo conseguia sentir seu cheiro de rosas brancas, um cheiro tão doce e cativante que em nenhuma outra vez na vida consegui sentir novamente em nenhuma outra mulher. Aquela foi, definitivamente, a melhor noite da minha vida... Dona Carla! Essa foi a última vez em que nos vimos até o dia de seu casamento. Um mês depois descobri que estava noiva. Tentei de várias formas entrar em contato com ela e no dia do casório lá estava eu na porta da igreja esperando. Vi aquela coisinha mais linda descer do carro e ela me lançou um olhar, de início frio e calculista, até que se encheu de lágrimas, um olhar triste e angustiante, abaixou a cabeça e seguiu em direção ao altar. Foi ai que entendi; ela me amava tanto quanto eu a amei mas aquilo era o certo a se fazer. A partir daí segui em frente com minha vida.
Olhou para a janela e observou as rosas brancas florescendo no jardim. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Por Beatriz Bicalho
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