domingo, 1 de dezembro de 2013

S.O.C.O.R.R.O





Rio de Janeiro, favela da Rocinha.
Maria do Socorro, voltando da igreja para seu barraco, após mais um dia de trabalho, consegue ouvir, ao entrar no beco que leva à porta de entrada, os berros de seu marido já alcoolizado. Ela respira fundo, pede forças a Deus e entra. Assim que ele a vê, arremessa a garrafa vazia, mirando em sua face. Ela desvia. Ele a olha com ódio queimando em seus olhos, anda em sua direção e, segurando-a pelo pescoço, encosta-a contra a parede de tijolos à vista: “Onde você estava, sua vagabunda?” e antes que ela pudesse responder, ele continua “Quantas vezes terei que repetir que lugar de nega desdentada, parideira de 4 filhos e casada não é na igreja? Você é preta, não é gente. Não tem os mesmos direitos dos outros!” e cospe em sua face, soltando um riso de escárnio. “Vai, piranha, anda logo, antes que eu termine de arrebentar teus dentes! Você tem que levar o bagulho lá pros caras antes das oito horas, e me dar o dinheiro que recebeu hoje! Se é que algum macho quis te comer, nojenta, como você é!”
Socorro, submissa, atende à ordem. Entrega o dinheiro a ele, com as mãos trêmulas, atravessa o barraco de um cômodo, apanha a maconha que está ao lado do papelão onde dorme e dirige-se ao banheiro, fora do barraco, para lavar o rosto da cuspida de seu marido e sair de casa.
Andando pelas ruas, sente-se inferior às demais pessoas. Olha suas mãos repletas de calos e de unhas com esmalte descascado, passa a mão por seu cabelo mal tratado e grisalho, olha seus pés cansados, que já a carregam por mais de quarenta anos, e seus olhos enchem-se de lágrimas.
Ao chegar em seu barraco, após ter cumprido a tarefa que lhe foi dada, depara-se com seus 4 filhos sentados no chão, esperando que ela chegasse, para poderem comer e cuidar do ferimento no pé de seu filho mais novo, que pisou em um dos cacos do vidro da garrafa. Ela põe o feijão para cozinhar e o arroz também, e vai cuidar do pé de seu filho de 2 anos. Seu marido chega, a pega pelos cabelos e dá um tapa em sua face. As crianças, embora acostumadas com tal rotina, assustam-se. O pai as ameaça, manda ficarem caladas e inicia seu culto à tortura de sua esposa.
Socorro acorda com o som do despertador. Levanta-se, arruma seus filhos e manda-os para o colégio. Quando entra em casa, para na frente do espelho, se olha nos olhos e prepara suas três carreiras de pó, sagradas. Apanha sua bolsa, sua bíblia e vai aos pés do Cristo, rezar.
Já com os olhos inchados, de tanto chorar, Socorro levanta a cabeça, olha à sua volta e sente-se um nada. Levanta-se e aprecia, por alguns minutos, a vista do Rio de Janeiro. Vira-se, olha para a estátua do Cristo, e pergunta: “Socorro?”

Com os olhos já cheios de lágrimas, novamente, abaixa a cabeça, pega um pequeno espelho de sua bolsa, olha para si, novamente. Vê as lágrimas rolarem e se pergunta onde foi que se deixou, no caminho que trilhou até agora. Olha fundo em seus olhos e afirma: “Socorro. Maria do Socorro.” E se joga, pondo fim à sua vida de puro sofrimento.

Carta de um Suicida
Findo aqui essa vida miserável de sentimentos. Pontuo finalmente minha inútil existência cinzenta.
As cores já não possuem mais sabores, texturas. A vida já não é mais vida; passou a ser existência, uma penitência, um cárcere de ouro, um fardo em demasia pesado e duro.
O chão é fino, frio, feio, doente, meu chão que criei e não sei como pisar, apesar de ter ensinado o mundo a fazê-lo.
Tudo é como uma nota afinada, pontuada por um acorde em terça. Chorada, marcante, melancólica, só, ambígua, má, bela, porem oca de coisas boas.
As letras com as quais mancho, agora, esse papel, sei que serão lidas, serão fonte de dor e saudade, porém de liberdade.
É com enorme apreço que, lentamente, findo minha errônea existência com esse bálsamo chamado veneno.
Quero minha beleza fria, egoísta, estática, hedonista em minha lápide adornada por vocês.
Carinho e egoísmo.

Por Gabriela Frota

Nenhum comentário:

Postar um comentário