Crescemos praticamente juntos e, apesar de a história de sua vida ser resumida em tragédias, não havia motivos para optar por esse caminho. Em uma noite chuvosa qualquer de seus oito anos de idade o pai chegou bêbado em casa e assassinou sua mãe após tê-la espancado com uma garrafa quebrada e em seguida estuprou seu corpo ensanguentado numa tentativa insana de reanimá-la. De minha casa, que era a mais próxima da vizinhança, pude ouvi-lo gritar:
- Geme mulher! Não é disso que você gosta? Geme! Porque não está gemendo??
Quando a polícia chegou Daniels estava encolhido e imóvel debaixo da mesa observando a cena de seu pai bêbado desamidado ao lado de sua mãe ensanguentada, estuprada e morta. Lembro-me que aquilo foi assunto de meses para a cidade e o garoto ele por ir morar com a avó paterna que vivia na rua de cima.
Sua adolescência foi marcada por uma fase de rebeldia e vez ou outra eu ia até a casa de sua avó visitá-lo já que éramos colegas de escola, onde sempre o encontrava desenhando em seu quarto, paredes imersas em desenhos que lembravam naipes, todos muito complexos e meio abstratos.
Eu tinha muita pena de Daniels, ninguém escolhe pra si mesmo contemplar uma cena daquelas e meu coração. Foi numa tarde qualquer depois da escola que sua avó chegou eté mim e disse:
- O garoto não tem salvação! Já incorporou o espírito do pai. Maldito foi o dia em que pari aquela criança. Já não falo mais disso e rezo pra que Deus me leve embora antes que aconteça outra desgraça. Fique o mais distante possível dele, sua mente é perversa, maquiavélica, instável, furiosa!
Sem dizer uma palavra sequer, me retirei dali no exato momento.
Na saída, hesitei em olhar pra trás mas acabei por não me conter. Maldita curiosidade! É claro que ele ouviu o comentário de sua avó e seu olhar ameaçador agora me deixou com calafrios.
Sentia em cada arrepio de meu corpo o mal de dentro do coração daquele de Daniels.
Aquele instante não saiu de minha cabeça e o sono acabou por não me visitar aquela noite. Não era pra menos. As batidas de meu coração dispararam ao ouvir sirenes vindas da rua de trás no meio da noite. Me levantei no mesmo instante e desci até lá para saber o que ocorreu, desesperado perguntei a vizinhança o que aconteceu e dentre as diversas vozes que conversavam desesperadas ao mesmo tempo consegui ouvir:
- O garoto é um insano! Matou a própria avó exatamente da mesma forma que o pai matou a mãe! Completamente louco! A polícia deve encontrá-lo o mais rápido possível, é uma ameaça para todos nós!
Mantive-me paralisado por um instante até concluir que eu também era uma ameaça a ele. Meu Deus! Corri para casa o mais depressa que pude e ao chegar lá percebi que havia algo errado. Corri ao quarto de Catharine, minha irmã mais nova, e me deparei com a cena mais aterrorizante de minha vida, morta nos braços daquele maníaco de forma brutal, minha doce e inocente irmãzinha rasgada e ele apenas sorria, sorria como alguém que acaba de ouvir a melhor piada de sua vida, sorria. Soltei um berro em meu desespero.
- Nãããããããããão!!! Seu maldito!!! Porque fez isso?
No mesmo instante quebrei o vidro do espelho ao meu lado e com os cacos pulei em cima dele. Sentia minha pele rasgar e sentia e me sentia rasgando algo também. Ao cair minha ficha e o momento de desespero desenfreado ir embora me encontrei imobilizado. Havia muito sangue em minhas mãos e parte deste pertencia àquele monstro. Seu rosto estava completamente ensanguentado e suas bochechas rasgadas de um lado ao outro. Ele se olhava no espelho e sorria, apenas sorria. De repente lançou um olhar sobre mim e disse:
- Mas porque tão sério?
Se levantou e foi embora. Me encontrei em prantos e acolhi o corpo de Catherine numa esperança tola de que ela pudesse tornar a viver. Embaixo dela estava a lembrança, uma carta. Um jocker.
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