Vivo sujeito a uma angulação bem específica. Uma conformação de linhas e traços, entrecortados, que parecem calculada e minuciosamente arranjados para me trazer sofreguidão e sofrimento. Vivo nessa claustrofobia, fechado em seis planos e em três dimensões. Vejo carros passarem, fumaças verterem. Acompanho o Sol e a Lua, e a luz deles não me injetam a alegria, não me fotossíntetizam.
Vivo atrasado no tempo, embora sempre chegue adiantado. Vivo morto de fome, embora a angústia me faça comer mais do que deveria para manter um nível razoável de saturação lipídica no coração.
Tenho que me preocupar com o coração. Sou ansioso. Não, fui-me feito assim. Este maldito desenho, estreito, cor de pele, bem específico, logrou-me este despeitado estado de espírito que colou e não me deixa.
- Ah, maldito seja Deus! Pintou coisa tão...tão... Maldito seja. – E como um pêndulo, minha cabeça pende, negativamente.
A bem da verdade, não é a geometria do desenho que desafia a minha existência. É a falta dele. E o resquício que sua presença deixa na minha memória.
- Eu queria não ser capaz de lembrar das coisas. – Talvez assim me curasse.
Foi numa manhã como qualquer outra. Exceto pelo fato de ter sido completamente diferente. E, na verdade, não sei ao certo se foi de manhã, tendo em vista que passava do meio –dia. Bem, foi numa instância inter-matinal-vespertina. Foi no período de “kilo”, pós-almoço. No período da tristeza sonífera, naquele momento em que se quer tudo, menos tudo, a exceção de tirar uma soneca bem babenta.
Estava sentado, remoendo uma refeição mal feita, de tempero duvidoso, e preço que fazia meu bolso sentir fome.
Eu lia.
Qualquer coisa.
Lia sem ler, correndo palavras que não se articulavam em significados. Um desafio à semiótica.
Eu, exatamente, perambulava por parágrafos só pelo bem-estar de me esquecer de mim. E me lembro, que naquela época, eu me sentia confortável com isso.
Realmente confortável.
Daí, por razões que o Universo desconhece e as constelações conspiram em atávica e diabresca diversão. Sinto uma presença, um ponto de gravidade densificando-se no meu hemisfério esquerdo, e um cheiro gostoso, e um cruzar de pernas longilíneas, e...
E...
E para aumentar ainda mais esta conformação entrópica e estranha, e irregular, e indescritivelmente significativa, que Einstein, Galileu e Pitágoras falhariam em formular concretamente. Ocorreu uma explosão, um “Big-Bang” existencial, uma falha quântica, um Dejà-vu, algo para o qual desembocaram todos os meus passos e palavras não lidas, e para os quais todos os outros atos se projetariam dali em diante.
- Oi, ... – As reticências são meu nome, o qual não ouso repetir, e se repito, não sinto que haja dignidade, porque não é dito da mesma forma que naquela ocasião.
E, após isso...
A tal conformação geométrica, angular, descontínua, desenhado pelo mesmo traço que colocou Órion, Andrômeda e o Cruzeiro do Sul no firmamento.
Ali estava.
O sorriso dela.
Por Matheus Queiroz
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