Pituco estava desconsolado, me olhava de soslaio, com o cantinho do olho redondinho, bem pretinho, bem caladinho, bem tremidinho, ali no cantinho da sala.
O rabinho dançava enérgico, rápido, pra-lá, pra-cá, pra-lá, pra-cá, pra-lá, certo, você já entendeu...
De vez em quando soltava um gemidinho, um grunhido carregado de toda a dor do mundo, “rwoooon”, e seu corpo esquelético vibrava, parecendo que ia se despedaçar, como se estivesse exposto ao frio dos polos.
Estava sentado em cima das bolinhas, dava dor de ver. É, das bolinhas mesmo. É, essas mesmo. Acho que estava se auto-mutilando, queria descarregar as angústias pelo desconforto no testículo. Porque realmente, devia estar insuportável.
Ele latiu.
- Calma Pituco, calma!
Ele latiu de novo, fingindo que não me entendia.
As orelhinhas, com as veias saltando, retorcidas para baixo, o rabinho entre as pernas, aquele olhinho pretinho vertendo lágrimas. As costelinhas saltando do tórax lânguido mostrando toda a robustez do corpinho de 5 quilos.
- Ah, Pituco, não fica assim!
Ele chorou, naquele cantinho, entocado, suspirando.
Pituco havia perdido seu grande amor. Um travesseiro velho, que dei de presente quando ele era filhotinho. No início eles dormiam juntos. Depois a relação foi se complicando e Pituco jogava o travesseiro com força para tudo quanto é lado. Depois, a relação se aprofundou e Pituco e o travesseiro transaram muitas vezes. Um dia, no entanto, o travesseiro havia cedido, rasgando-se duma ponta à outra.
As coisas são assim Pituco, um dia você tem o travesseiro, um dia você está no canto tremendo. Mas o travesseiro não foi embora, não. Ele te mudou, você é o Pituco-que-já-teve-o-travesseiro. Amanhã, não se sabe. Você pode ser o Pituco que caiu do caminhão de mudanças...
Por Matheus Queiroz
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