Há algum tempo então conclui que os laços que nos atam a vida são muito frágeis, temos tantos defeitos e deficiências que é até fácil compreender o apego ao místico. Diferente do que possa parecer, eu não nego nem afirmo a existência de uma força motora una e indubitável, no entanto a sua importância como moderador de ações é importante ao meu ponto de vista. Eis a questão. O importante é como agimos uns com os outros e não o porquê de o fazermos, correta ou erroneamente. Por amor se cometeram os crimes mais hediondos e as maiores traições (como dito por Maquiavel) entretanto por ódio, tais crimes, também ocorreram, nem mais amenos ou brutais, mas tão intensos quanto. Tais crimes não estão justificados em crenças, mas em condutas desviadas.
A ética outorgada por cada grupo é no mínimo projetada para garantir a sobrevivência do mesmo. Nesse percurso é que os preceitos lindos pregados pelo messias se perderam como se perde o parafuso perfeito entre todos os outros inúteis que estão na caixa de ferragens empoeirada na garagem. Já que foi possível deturpar tais conceitos, seria possível então purifica-los novamente pela mesma ferramenta? Em tese sim, no entanto essa crença é também a perdição, ou uma das que leva as aglomerações fervorosas ao mesmo fim decadente. Abnega-se a razão em detrimento do grupo, e da perpetuação daquela moral. Assim os preceitos perfeitos não são mais o que te fazem estar ali naquela ceita, mas o fato de que você pertence aquela ceita. Ali você tem amor.
Outro fato que concluí é que o fato de sermos seres racionais é na verdade um dos nossos maiores castigos. A urgência que as coisas têm de uma definição foi a maior praga que já nos afligiu. Veja, primeiro somos capazes de nos reconhecer, temos consciência de que existimos e que o mundo a nossa volta nos causa certas impressões. Tais impressões têm padrões distintos de maneira que fomos capazes de qualifica-los em grupos, os sentidos. Entretanto, somos capazes de simular impressões e de gerar estímulo que não tem necessariamente a ver com o mundo a nossa volta, posto que isso não pode ser um sentido, alguém propôs que se tratasse de sentimentos. Sim, a meu ver essas coisas que nos fazem não poder viver sem uma pessoa, ou não poder compartilhar a mesma galáxia com outras, é puramente virtual. Mas com isso não quero garantir que isso não seja importante, muito pelo contrário, isso faz com que sejamos capazes de determinar o que somos, - o que na minha opinião é- a união de todas essas experiências. Já que nos desenvolvemos por podermos virtualizar tais sentimentos, eles são de fato fatores deliberantes em nosso "sucesso" enquanto raça.
Com essas cheguei a uma terceira conclusão. A têm-me compelido a tecer tais teorias faz de mim tão humano e sentimental quanto qualquer outro. Cada um de nos tem a sua própria forma de adorar a própria existência, e de permeá-la com existências que lhe são queridas. A grande beleza nisso tudo está em tecer essas teias, está e conhecer e conviver, estabelecer esses vínculos. A maravilha da vida está em amar, considerar alguém. Note que para mim o amor é tanto exageradamente positivo quanto plenamente negativo, e assim por termos sido ensinados que amor é só coisa boa, demos o nome de ódio, no entanto trata-se de um mesmo sentimento em duas facetas. Sentir os cheiros, pisar nas superfícies, tocar os cabelos e saborear o que há são o que faz valer a pena. E se por saber que a cada instante algo plenamente novo pode surgir, você quer perder o esplendor da novidade?
Leonardo Leite.

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